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terça-feira, 13 de julho de 2010
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Entrevista do Candidato do PSDB José Serra a Presidência da República. Entrevista Exclusiva para a ISTO É

"No meu governo não terá um ministro que pensa de uma maneira e outro que pensa o contrário" Parte 2
O candidato José Serra diz, em entrevista exclusiva à ISTOÉ,
que o presidente do Banco Central será subordinado
ao ministro da Fazenda
ISTOÉ – O sr. é centralizador, como o acusam?
Serra – É engraçado... Eu não sou centralizador no trabalho de governo. As pessoas têm uma liberdade enorme para trabalhar comigo. Eu monitoro, o que é diferente. Acompanho, cobro resultados e, quando o assunto não está andando, eu mergulho. A centralização é ineficiente e eu procuro sempre render naquilo que estou fazendo. Se você ficar centralizando tudo, prejudica os resultados. Sou demasiado racional para viver num esquema dessa natureza.
ISTOÉ – O sr. ainda não tem um vice. Isto não o preocupa?
Serra – Sinceramente, não estou angustiado. Acho que há muitos nomes bons, muitas pessoas que aceitariam e temos ainda duas semanas para decidir.
ISTOÉ – O Aécio Neves era o vice ideal? Foi uma grande perda?
Serra – Não foi perda no sentido de que você só perde o que tem. Para mim, sempre ficou claro, desde o início, que o Aécio não topava ser vice. Ele me disse isto lá no final do ano. Há pouco, teve o pessoal de Minas querendo que o Aécio fosse vice. Não é que eu não quisesse, mas não levantei esta bandeira em respeito a ele. Se alguém me diz que não quer fazer isto, eu vou ficar depois insistindo?
ISTOÉ – Neste quadro de empate técnico na disputa, com que trunfos o sr. conta para voltar à dianteira?
Serra – Se eu tivesse esses trunfos, não contaria numa entrevista. Mas não tem nada milagroso. O Lula não é candidato. A partir de 31 de dezembro ele não será mais presidente e a população vai ter que escolher quem vai continuar levando o Brasil para a frente. O eleitor vai julgar, com base nos apoios que os candidatos têm, com base no que fizeram, no conhecimento, nas propostas para a frente, na credibilidade. Mesmo nas fases em que eu estava liderando, nunca achei que a eleição ia ser moleza. Será uma eleição dura e disputada.
ISTOÉ – Que outros problemas o sr. observa no governo?
Serra – De economia a gente já falou. Há outras questões vitais como a saúde. Existe uma clara percepção da população, não minha, a respeito da deterioração do atendimento da saúde no Brasil. Outro aspecto fundamental é a segurança, que deixou de ser um problema lateral, como sempre foi visto historicamente.
ISTOÉ – A legislação trata a segurança como um problema estadual, não federal. O sr. vai mexer nesta legislação?
Serra – Se for preciso, mexemos na própria Constituição. Mas não creio que seja. O governo federal não pode mais ser só um observador da segurança, dando um dinheirinho aqui, fazendo uma coisinha ali. O crime não tem fronteiras, nem entre países, o que dizer entre Estados. O assunto da fronteira também tem que ter uma solução. Não podemos ter uma fronteira seca deste tamanho praticamente desguarnecida.
ISTOÉ – O sr. está falando em envolver as Forças Armadas?
Serra – Não. Um soldado ou um oficial das Forças Armadas não é preparado para olhar notas fiscais, uma série de documentações, etc. Precisamos de uma força que, embora militarizada como as PMs estaduais, tenha uma preparação específica para isto.
ISTOÉ – Apareceram nos últimos dias notícias sobre dossiês na campanha. O sr. está se sentindo espionado?
Serra – Eu não estava, mas descobriu-se que estamos sendo espionados.
ISTOÉ – O sr. acha que estamos vivendo num Estado policial?
Serra – Não chega a isto. Não quero fazer comparações, vou falar apenas o que eu penso sobre esta questão. Para uma grande parte da esquerda, a democracia era vista como uma coisa tática, menor. Nunca se debruçaram sobre questões como a forma de governo, por exemplo. Para a direita, a democracia era vista apenas como consequência. Curiosamente, os dois lados sempre tiveram um enfoque economicista a este respeito. Os dois casos são insuficientes.
ISTOÉ – Agora o sr. é vítima desses dossiês. Mas seus adversários dizem que o sr. também perseguiria inimigos políticos. Colocam na sua conta, por exemplo, o caso Lunus, que atingiu a Roseana Sarney.
Serra – O que é evidentemente uma estupidez. Falam, mas nunca apareceu o mais remoto indício para começar a ser investigada qualquer coisa a este respeito. Já no dossiê Cayman o pessoal foi preso. O dossiê dos aloprados deu prisão. E agora deu a maior confusão a ponto de mandarem gente embora. Eu não tenho cabeça para este tipo de coisa.
ISTOÉ – O sr. acha que a candidata Dilma é responsável por estes dossiês?
Serra – Como dirigente da campanha, claro. Não estou dizendo que foi ela quem fez a coisa. Mas quando acontece algo assim se deve agir imediatamente. Abominar aquilo ou assumir a responsabilidade e tomar medidas. Mas se passaram dias e não aconteceu nada. Se vocês pegassem o blog da Dilma tinha lá boa parte das ignomínias que estavam nos dossiês. Parece que eram dois dossiês: um que já estava pronto, e que dignatários da campanha da Dilma comentaram com a imprensa, e outro que iria ser preparado. Pois todo este material está posto, a cada dia, no blog da Dilma. Nos últimos dias retiraram.
ISTOÉ – Como seriam, no seu governo, as relações do Brasil com Cuba e Venezuela, por exemplo?
Serra – Normais. Sou ferrenho defensor da autodeterminação. Agora, se tiver chances de fazer pesar uma posição em defesa dos direitos humanos, por exemplo, eu faria. Se houver uma votação num órgão de direitos humanos em prol da maior liberdade em Cuba, o Brasil votará a favor.
ISTOÉ – E quanto às relações do Brasil com o Irã?
Serra – Eu dou ao governo o crédito da boa vontade que tiveram. Agora, eu não confiaria no parceiro. Eu não confiaria no Ahmadnejad. Convenhamos, um país que condena um jornalista a 16 anos e condena à forca manifestantes não é um país que respeita direitos humanos. Eu não acho que o Lula tenha simpatia pelo regime de lá. Mas deu um crédito de confiança que eu não teria dado.
ISTOÉ – Sua campanha vai abordar agora aspectos mais pessoais, falando sobre sua infância humilde. O sr. está decidido a mostrar uma outra face ao eleitor?
Serra – Eu nunca gostei muito de expor essas coisas assim. Acho que não tem muito a ver, sabe. Mas o pessoal acha importante e sei que isso acabou virando importante no Brasil. Eu disse que aprendi o que é a pobreza não estudando, não numa reunião política. Eu aprendi vivendo. Para mim, não é teoria quando falo de saúde, de deficiente físico, de andar em ônibus apertado, de pegar condução ruim.
ISTOÉ – E sua fama de mal-humorado? É só pela manhã?
Serra – Eu só sou mal-humorado quando durmo pouco.
ISTOÉ – Como são os seus vínculos com os netos?
Serra – São muito fortes. Eles são todos pequenos. O mais velho tem 7 anos, a menina, que é terrível, tem 3, e o outro está caminhando para 2.
ISTOÉ – O sr. viveu a experiência trágica de perder uma neta recém-nascida. Como isso pesa hoje na relação com os seus netos?
Serra – A relação já era forte com o irmão dela, o Antônio, que foi o primeiro filho. A Sofia, que morreu, foi a segunda. Isto aí não tem muito conserto, viu? Nem para os pais, nem para mim, nem para o irmão. Fica uma marca. Você pensa sempre... Essa história de que você vai esquecer e tal... Não há hipótese.
ISTOÉ – O sr. não acha que o país ideal, em termos de educação, é aquele em que seus netos poderiam estudar numa escola pública?
Serra – Eu acho. Na Mooca, onde eu morava, estudar em escola particular era mal considerado. Era para quem não ia bem na escola. “Fulano precisou ir para uma escola particular”, era um estigma. Acho que a situação de hoje é reversível, mas será demorado. Na minha época o Brasil tinha 50% de analfabetos. Houve uma correspondência entre a abertura do ensino e a deterioração. Hoje são máquinas gigantescas. O governo do Estado tem cinco milhões e tanto de alunos, cinco mil escolas. Tudo centralizado. A prefeitura aqui tem um milhão de alunos. A estratégia para mudar deve estar na valorização da sala de aula. Como prefeito e governador eu dava aulas de verdade na quarta série. Era muito divertido. Aí vi com muita clareza qual é o problema. Em geral, as escolas são boas. Essa história de que as construções são ruins é conversa. O problema é que não se aprende na sala de aula. Na quarta série o sujeito não sabe tabuada. Eu aprendi na pré-escola. Não sabem mais ler em voz alta. Vi que não tinham currículo, guia para professor. Isto tudo virou ideologia: ah, compromete a liberdade do ensino... Como assim? Tem que ter um guia, um programa mínimo. E o aluno precisa de material para estudar. Ele vai embora e não tem onde ler aquilo que foi ensinado.
ISTOÉ – O sr. é favorável ao sistema de cotas para negros?
Serra – Sou a favor de políticas afirmativas diversas, como a Unicamp fez. É um bom esquema que leva em conta escola pública, cor e conhecimentos.
ISTOÉ – Por cor apenas, não é a favor?
Serra – Eu acho que a gente tem que fazer um balanço das diferentes experiências. Mas, em geral, sou a favor das ações afirmativas.
ISTOÉ – O sr. apoiou ou não a revisão da Lei de Anistia?
Serra – Acho que a gente tem que saber a verdade. Mas, do ponto de vista jurídico, não teria andamento. O Judiciário não faz coisas retroativas.
ISTOÉ – O sr. pediu indenização por seu período no exílio?
Serra – Não. Eu mandei uma carta tratando de tempo de trabalho, porque efetivamente trabalhei 11 dos meus 14 anos no Exterior. E nessa carta eu renunciei explicitamente a qualquer ajuda financeira.
ISTOÉ – O sr. acha que houve abusos nas indenizações da chamada bolsa-ditadura?
Serra – Há abuso, claro. Tem gente que ajudei a obter, dando meu testemunho. Mas tem gente que acho um absurdo completo receber. Essa do Glauber, por exemplo. Se é compensação financeira, supõe-se que você deixou de ganhar, ou virou abuso.
ISTOÉ – Dizem que o sr. sempre se preparou para ser presidente. Quando este desejo realmente apareceu?
Serra – Aí é muito folclore. É que uma tia e algumas senhoras que foram amigas da minha mãe, que teria agora 94 anos, diziam que “o Zezinho (nome pelo qual me chamavam), quando tinha 5 anos, já dizia que queria ser presidente”...
ISTOÉ – É verdade?
Serra – Não sei, não me lembro.Tem uma tia que falava em 10 anos. Mas é verdade que eu discutia política com adultos, quando tinha 8, 10 anos. Não tenho a menor ideia do que eu devia dizer...
ISTOÉ – Nessa época, o sr. pensava em grandes estadistas, certamente. Quem eram?
Serra – Churchill e Roosevelt, até hoje.
ISTOÉ – Ninguém pela esquerda?
Serra – Eu tinha pelo Fidel, mas aí quando já era estudante. Ele me desiludiu. Conheci o Fidel, estive com ele uma noite conversando e não vi motivos para ficar entusiasmado.
ISTOÉ – E no Brasil, alguma referência?
Serra – Juscelino, sem dúvida. Eu tinha alguma admiração por ele.
ISTOÉ – E Getúlio Vargas?
Serra – Sobre Getúlio eu tinha ideias contraditórias. É que na Mooca havia muitos comunistas. E desde criancinha eu vi gente sendo perseguida. Meu bairro era um reduto de comunistas e sindicalistas que, na época do Estado Novo, sofreram muito. Isto sempre me deixou com um pé atrás com Getúlio.
ISTOÉ – E o Jango, com quem o sr. se reuniu quando era presidente da UNE?
Serra – Eu cometi erros eleitorais. O primeiro foi ter votado no Jânio, em 60, na minha primeira eleição. Votei nele embora fosse simpático ao Lott. Foi um voto errado. O Jango, que conheci, era um boa-praça, um bom coração. Mas acho que ele não estava bem preparado para a complexidade que o Brasil já era. Pegou um rabo-de-foguete.
ISTOÉ – Em relação ao governo Lula, o sr. está à esquerda ou à direita?
Serra – Do ponto de vista da análise convencional, eu estou à esquerda. Só que eu acho que esta análise hoje é muito pobre. Hoje você pega pessoas que se dizem de esquerda e são, na verdade, reacionárias, defendendo interesses estritos de uma corporação. Esquerda, tal como existia, não existe mais, praticamente desapareceu. Este debate, então, fica uma espécie de ficção.
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segunda-feira, 15 de março de 2010
25 anos de NOVA REPÚBLICA.....Artigo de José Serra. Prisioneiros da Democracia

segunda-feira, 15 de março de 2010
25 Anos de Nova República: o artigo de José Serra.
Prisioneiros da democracia
Sejamos todos cativos da democracia. É a única prisão que presta tributo à liberdade. Repudiemos a sugestão de que menos democracia pode implicar mais justiça social
O Brasil comemora hoje os 25 anos da Nova República. Isso quer dizer que celebra um quarto de século de estabilidade política e de plena vigência do Estado de Direito, o mais longo período da fase republicana com essas características. Na primeira década da restauração da normalidade institucional, a democracia de massas firmou-se e afirmou-se no bojo da nova Constituição. E isso se deu apesar da morte do presidente eleito Tancredo Neves, da superinflação, do sufoco externo e do impeachment do primeiro presidente eleito pelo voto direto desde 1960.
A partir da estabilidade de preços conquistada pelo Plano Real, a credibilidade externa foi sendo reconquistada, nosso setor produtivo tornou-se mais competitivo interna e externamente, as fronteiras do comércio se expandiram e, acima de tudo, deflagrou-se um processo cumulativo de acesso das camadas mais pobres a um nível mínimo de bem-estar social. E essa mudança não caiu, como diria alguém, da árvore dos acontecimentos. Foi uma construção.
Durante muito tempo, a imagem do Brasil como o país do futuro foi para nós uma bênção e uma condenação. Se ela nos ajudava a manter a esperança de que um dia transformaríamos nosso extraordinário potencial em felicidade vivida, também nos condenava a certo conformismo, que empurrava, sempre para mais tarde, os esforços e sacrifícios necessários para a superação de limites. Durante um bom tempo, o gigante que um dia acordaria serviu mais à má poesia do que à boa política. E tivemos de dar o primeiro passo, aquele que, pode-se dizer agora, decorridos 25 anos, foi um ato de fato inaugural. E não que a fronteira tenha sido rompida sem oposições de todos os lados.
Certo convencionalismo pretende que a história dos povos se dê numa alternância mecânica de ruptura e acomodação; a primeira engendraria mudanças que acelerariam a história, conduzindo a um patamar superior de civilização; a segunda concentraria as forças da conservação ou mesmo do reacionarismo, sendo fonte de perpetuação de injustiças.
A nossa história de país livre não endossa esse mecanicismo. Sucedendo à monarquia constitucional, a República entrou em colapso em menos de 40 anos. Somente nos anos 90 tivemos o primeiro presidente Fernando Henrique Cardoso que, eleito pelo voto universal, transmitiu o poder a um presidente igualmente escolhido em eleições livres e que concluiu seu mandato. Em pouco mais de um século de República, o Brasil teve dois presidentes constitucionais depostos, um que se suicidou para evitar a deposição, um que renunciou e outro que foi afastado de acordo com as disposições da Constituição no período, o país experimentou duas ditaduras: a do Estado Novo e a militar.
Como se nota, experimentamos mais rupturas do que propriamente acomodação e boa parte delas não pode ser considerada um bem. Enquanto aquele futuro mítico nos aguardava, as irresoluções foram se acumulando. Quando o Brasil, na década de 80, se reencontrou com a democracia, era visto como uma das sociedades mais desiguais do planeta, com uma dívida externa inadministrável, uma economia desordenada e uma moeda que incorporara a inflação como um dado da paisagem.
A Nova República teve a coragem da conciliação sem, no entanto, ceder nem mesmo os anéis ao arbítrio. E isso só foi possível porque o povo brasileiro não se deixou iludir pela miragem de uma mudança por meio da força. Entre a democracia e a justiça social, escolhemos os dois. Nem aceitamos que a necessidade da ordem nos impedisse de ver as óbvias injustiças nem permitimos que, para corrigi-las, fossem solapadas as bases da liberdade. O povo ficou ao lado das lideranças que tiveram a clarividência de escolher a transição negociada. Aqueles eventos traumáticos que marcaram os 10 primeiros anos da Nova República não chegaram nem sequer a arranhar a Constituição. Ao contrário: curamos as dores decorrentes da democracia com mais democracia; seguimos Tocqueville e respondemos aos desafios da liberdade com mais liberdade.
Essa vitória da mudança gradual sobre as ilusões da ruptura não se fez sem lutas. Milhões de brasileiros foram para as ruas, em ordem e sem provocações, exigir o voto popular direto para a Presidência e para todos os cargos eletivos. O movimento das Diretas-Já não foi imediatamente vitorioso, mas mostrou sua legitimidade e levou setores que apoiavam o "antigo regime" a perceber que uma nova ordem estava nascendo: a ordem democrática.
Assistimos à Constituinte, às eleições diretas e à plena restauração da soberania popular. Esse tripé da consolidação democrática, com seus corolários alternância no poder e transição pacífica , são a base institucional que distingue o Brasil do presente daquele da fase da instabilidade. Foi a crença nesses valores que nos permitiu superar a ilusão de soluções radicais e imediatistas. A democracia, tornada um valor inegociável, permitiu que os sucessivos governos pudessem aprender com os erros de seus antecessores e os seus próprios, corrigindo-os, o que concorre para o aperfeiçoamento das políticas públicas.
Não foram erros pequenos nem triviais. Alguns foram monumentais, como o confisco da poupança e a tentação, de um cesarismo doidivanas, de acabar com a inflação "num só golpe", confiscando a poupança popular. A democracia que nos permitia errar de modo fragoroso também nos permitiu um acerto histórico: a implementação, nos governos Itamar Franco e Fernando Henrique, do Plano Real. Ele nasce, sem dúvida, de uma engenharia econômica ímpar, de um rigor técnico até então desconhecido no Brasil nos planos de estabilização, mas acredito que uma das razões de seu sucesso nunca foi suficientemente considerada: ele foi amplamente negociado com a sociedade, com um razoável período de transição entre os dois regimes monetários. Mais uma vez, o gradualismo mostrava a sua sabedoria. A inflação não morreu com um golpe. Ela morreria com inteligência e democracia.
O significativo avanço das condições sociais e a redução do nível de pobreza no Brasil, hoje exaltados em várias línguas, só se deram por conta de políticas que foram se aperfeiçoando ao longo de duas décadas, como a universalização do Funrural, os ganhos reais no salário mínimo e os programas de transferência de renda para famílias em situação de extrema pobreza. O atual governo resolveu reforçar essas políticas quando percebeu que "inovações" como o Fome Zero e o Primeiro Emprego fracassaram. Também é um dado da realidade que as balizas da estabilidade, cuja régua e compasso são o Plano Real, foram mantidas (mais no primeiro do que no segundo mandato).
O crescimento, o desenvolvimento e o bem-estar não são manifestações divinas. Não estão garantidos por alguma ordem superior, a que estamos necessariamente destinados. Existem em função das escolhas que fazemos. Sou muito otimista sobre as possibilidades do Brasil. Se, antes, parecíamos condenados a ter um futuro inalcançável, hoje já se pode dizer que temos até um passado bastante virtuoso. Mas é preciso cercar as margens de erro para que continuemos num ciclo virtuoso. Dados recentes divulgados pelo IBGE demonstram que voltamos a ter um déficit externo preocupante e que a taxa de investimento está bem abaixo do desejável especialmente no caso do setor público para assegurar no futuro a expansão necessária da economia e do consumo. Afinal, os desafios que o Brasil tem pela frente ainda são imensos.
Com a Nova República, o Brasil fez a sua escolha pela democracia e pelo Estado de Direito. É essa a experiência que temos de levar adiante, sem experimentalismos e invencionices institucionais. Porque foi ela que nos ensinou as virtudes da responsabilidade inclusive a fiscal. Fazemos, sim, a nossa história; fazemos as nossas escolhas, mas elas só são virtuosas dentro de um desenho institucional estável.
Sejamos todos cativos da democracia. É a única prisão que presta seu tributo à liberdade. Assim, repudiemos a simples sugestão de que menos democracia pode, em certo sentido, implicar mais justiça social. Trata-se apenas de uma fantasia de espíritos totalitários. Povos levados a fazer essa escolha acabam ficando sem a democracia e sem a justiça.
José Serra
Governador de São Paulo
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