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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Saindo do Hotel Plaza .....( última parte ) Artigo do Comissário Aposentado Varig Ever Botelho

Saindo do Hotel Plaza... (última parte)

Ele era forte e alto, moreno de bigode espesso. Tinha alegria de viver. De tudo fazia piada. Vivia imitando homossexual. E fazia com tal maestria que quem não o conhecesse juraria que aquele personagem era ele, realmente. O vôo estava lotado. Eu estava na primeira classe e precisei apanhar algo na galley da econômica. A correria era geral, e, com rapidez no corredor encontrei com o Manoel que disse em um repente, “Pare!”, estanquei assustado e aquele homenzarrão com a mão delicadamente pressionando o peito com o dedo mindinho apartado dos outros, falou com voz delicada e zombeteira, “Aqui você tem que me pedir licença, pois eu sou a rainha desta passarela” fiquei sem saber o que fazer. Olhei em volta sem acreditar no que estava ouvindo e ele continuou, “Você pode ser mulher por mais tempo que eu, porque é mais idosa, mas eu sou mais mulher que você, porque sou feminina, Agora vá buscar o que você deseja” Sem olhar para trás segui rápido e quando me vi só, tive uma crise de riso ao lembrar do rosto dos passageiros observando aquela cena. Ele já havia sido chamado à Chefia e disseram, “Pô Manoel, por que ficas imitando viado a bordo?” no que ele respondeu, “ Há tanto viado imitando homem, por que não pode ter um homem imitando viado?” Ser humano fantástico, só se ouvia falar dos gestos de solidariedade com os amigos, sua lembrança é uma luz, e como estamos precisando de claridade, como está fazendo falta Manoel Barbosa.
O pensamento é um cavalo bravio impossível de montá-lo. Na verdade, para que ele nos serve? Sentimo-nos vivos quando pensamos. Há um estado de segurança indescritível. A vida não foi vivida em vão. A lembrança, boa ou ruim é um diploma de garantia da existência. A experiência toma proporções exageradas. Dá-nos um ar de respeitabilidade por termos trilhados aqueles caminhos. E a preciosa liberdade não é um pássaro solto, pois está sempre presa a um fio condutor que se chama experiência.
O que é isto? Não posso divagar em filosofias agora, isto é para outro momento. Observando uma lâmina de luz vinda do mar, penso em como tudo começou na Lagoa dos Patos. Daria tudo para ver Rubem Berta remando no barco, com o combustível aos seus pés, levando os passageiros para o hidroavião. Será que sabia que o empuxo que ele deu, iria fazer com que sua aeronave fosse dar milhares e milhares de voltas ao redor do mundo? Quantos sonharam o seu sonho. Sofreram, lutaram e morreram para manter a sua realização. Santos Dumont vivia quando a Varig estava no ar. Criador e criatura no afã de criar e servir.
Ah, prezado leitor, você pode estar imaginando que quero super valorizar estes fatos. Não, com certeza não! Apenas não quero que o cotidiano venha se misturar a fatos importantes, igualando-os a lixo.
Exercício de Marinharia, novembro de 1982; enviada por Tânia  Bucher
Aquele prédio que está agora defronte a mim havia nele um aparato técnico para formar profissionais de alta categoria. Simulador de vôo o mais moderno. Salas de aulas para formar comissários com os mais competentes professores, médicos para ensinar primeiros socorros e aulas de Etiqueta Social. Cursos variados, terapias de trabalho em grupo, como fazer o despacho de um passageiro, perceber se ele está nervoso na hora do embarque e saber compreendê-lo, na situação dele estourar seu estresse com o funcionário. Como agir, falar, sorrir sempre demonstrando total segurança. Haviam barracões laterais pintados, elegantes, onde funcionava o departamento de pessoal para informações iniciais aos primeiros candidatos ao trabalho. Após a aprovação dos testes de competência, o idioma inglês era obrigatório, os aprovados iam fazer exames médicos no segundo andar onde trabalhava uma equipe médica de primeira qualidade no cenário brasileiro. Nada passava desapercebido do olhar destes profissionais. Ao ser entregue o novo funcionário à secção onde iria desempenhar suas funções, com certeza ele estava apto, pois já havia sido preparado. Seja para trabalhar “na terra”, aeroviários, ou “no vôo”, aeronautas.
Rio de Janeiro, novembro 1982; colaboração de Tânia Bucher
No mês de fevereiro de 1971 eu chegava ao Despacho de Passageiros no aeroporto do velho Galeão.
Ever Botelho, 2006

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Dilma: Afirmação ou submissão? Artigo de Ronald Santos Barata. Coordenação do Movimento de Resistência Leonel Brizola

DILMA: AFIRMAÇÃO OU SUBMISSÃO?
“Não me importo de ganhar presente atrasado. Eu quero que o Brasil me dê de presente a Dilma presidente do Brasil”, conclamou Lula,  durante a campanha.
Dois discursos proferidos pela presidente Dilma Rousseff nas festas da posse, devem ser analisados,  mas sem deixar de atentar para  a composição do seu ministério.
Creio que ninguém, mesmo os que nela não votaram, deseja o fracasso do governo que se inicia. Ao contrário, deve-se  torcer para que tudo melhore e, em se tratando do governo de um partido que foi de esquerda, que retorne às suas origens.
Vê-se em algumas palavras da presidente, o desejo de  realizar um governo sem depender de nenhum tutor, com suas próprias características. “Um governo se alicerça no acúmulo de conquistas realizadas ao longo da história. Por isso, ao saudar os avanços extraordinários recentes, é justo lembrar que muitos, a seu tempo e a seu modo, deram muitas contribuições ao Brasil de hoje.” Correto. Palavras que confrontam os discursos do seu criador e do seu Partido, exclusivistas e arrogantes, que se intitulam os únicos protagonistas dos avanços sociais. Discurso, aliás, muito utilizado pelo PT e pela CUT no movimento sindical, como se a história tenha começado com eles.
Ao passar a faixa, Lula chamou os adversários de inimigos. Dilma declarou o desejo de ser presidente de todos e ofereceu a mão aos oposicionistas. Será que está abjurando o sectarismo? Todavia, torço também para que entre esses “todos”, não se inclua as tradicionais oligarquias que Lula tratou com afagos, benesses e solidariedade.
A expectativa é de como agirá Dilma. Será ela própria ou apenas uma sombra? Se aceitar que seu governo seja um mandato-tampão para a volta do “ex”,  como dito na campanha, será o caos não só para seu governo, mas para a democracia. Ela tem personalidade para imprimir sua marca e não  ser apenas uma aparência. Oos brasileiros de boa fé, desejam que Dilma  se imponha, imprima o seu estilo, cumpra as promessas da campanha, o que só poderá ocorrer se, em curto prazo, reformular o seu ministério e aigr com firmeza com o consórcio de partidos fisiológicos que a apoiam.
Já no primeiro dia do governo, houve desentendimento entre declarações da presidente e as do general Elito Siqueira, chefe do Gabinete de Segurança Institucional. Avizinham-se grandes divergências em relação ao reajuste do salário mínimo. SE não se puser ordem na casa, o governo ficará sem rumo. Muito preocupante foram as declarações da presidente de que há necessidade de desonerar a folha salarial. E o silêncio sobre a informalidade.
O OUTRO LADO DA MOEDA
“Eu troquei meu nome e coloquei Dilma na cédula”,  disse Lula num comício. É como dizer: será meu terceiro mandato.
Dilma, nos mesmos discursos com aspectos positivos, referiu-se a Lula com uma inflação de adjetivos que poderiam ser apenas demonstração de gratidão, mas que, na verdade, ecoam o PT quando apregoa o culto à personalidade. “Lula estará conosco!” – “Seu nome está gravado no coração do povo”. –“ ... um homem de tamanha grandeza e generosidade...” – E teve até aspecto religioso: “Sob sua liderança o povo brasileiro fez a travessia para a outra margem da história”. Temos aí o novo Moisés na travessia do Mar Vermelho. Ou Julio Cesar redivivo atravessando o Rubicão. Para quem sabe ler...
A frase de Lula, colocada no início deste trabalho, (“Não me importo de ganhar presente atrasado...”), não foi um gesto fortuito, espontâneo. É a campanha para consagrar um novo caudilho. Tanto é assim, que a consigna da campanha do PT era: “Dê a vitória de Dilma de presente ao presidente Lula”. 
Um partido que foi de esquerda e  trata a Presidência da República como uma prenda pessoal, abjura seu passado.
Dilma aceitou as imposições de Lula ao nomear para o chamado “núcleo duro” do governo,  comissários a serviço do ex-presidente.  Um deles, Gilberto Carvalho, ministro da Secretaria Geral do Governo, declarou recentemente: “Morro por Lula”. Antonio Palocci, Casa Civil, apelou para que os colegas o considerem como um do grupo e não um espião de Lula. A senadora Marta Suplicy, declarou no dia da posse: “Há uma parceria entre Dilma e Lula que ninguém quebra”. Recados muito claros.
O ex-presidente, com seu grande capital político, adquirido à custa de massacrante marketing, aparelhamento do Estado e sua facilidade de comunicação, declarou que tem dificuldade para assimilar sua saída de cena. Ele vai juntar-se a outros quatro ex-presidentes que nunca deixaram de fazer política. Mas deve encontrar um papel político no cenário nacional e internacional, condizente com seu prestígio e sua liderança, mas longe do círculo governamental. Para o bem do governo Dilma.
E AS ESQUERDAS, O QUE FAZER?
A principal força das esquerdas, o PT, antes da metamorfose, conclamava e trabalhava para organização da classe trabalhadora.  Agora,  com o aparelhamento da máquina governamental e a abundancia de recursos financeiros concedidos pelos “doadores espontâneos”, transforma-se em um partido que utiliza os movimentos sociais para evitar a politização, a organização e mobilização dos trabalhadores e do povo em geral e pretende que um  ex líder da esquerda, aos 65 anos de idade, seja  um aprendiz de Rasputin, místico e ambicioso. Através da CUT, que se filiou à AFL-CIO, central sindical norte-americana,  afastou os trabalhadores dos confrontos com o capital e passou para lutas pontuais contra organismos estatais. Para o PT, ao contrario dos partidos de esquerda,  acabou a luta de classes.
O PT, renunciando à luta de classes, passou a valorizar o lulismo, um mal definido ideário e que tem componentes de esquerda e de direita. O lulismo é mais que um partido e mais que um governo. É um pacto que não descarta mudanças, mas que sejam implantadas não através de mobilizações ou de lutas no Parlamento; que venham de cima para baixo; que não incomode os banqueiros nem o grande capital. Que sejam feitas sem conflitos políticos. Tudo dentro da ordem e com limites.
Aliás, quem profetizou corretamente sobre Lula, foi o general Golbery do Couto e Silva, o guru da ditadura militar que acreditava que Lula era o “homem que destruirá a esquerda no Brasil”. O que vemos hoje, é o principal partido de esquerda transformado num amontoado de trânsfugas aboletados num deprimente aparelhão, que pretende continuar a mandar no país. 
Restaram, defendendo com coerência a esquerda tradicional, a parcela que mantém os princípios socialistas, trabalhistas e comunistas, alguns partidos pequenos e Movimentos que estão grandemente fragilizados. Tanto é que os quatro partidos de esquerda que disputaram a última eleição presidencial, não alcançaram sequer um por cento do eleitorado. As exceções no movimento sindical, os que procuram lutar em defesa dos interesses dos trabalhadores, encontram a forte resistência das grandes centrais sindicais e dos sindicatos cooptados. Da mesma forma, no Parlamento a hegemonia é do aglomerado fisiológico que conseguiu eleger 311 deputados, podendo fazer reformas constitucionais sem negocia. Além de obter maioria no Senado.
Portanto, é indispensável que os grupos que mantêm seus princípios, passem a conversar e construam uma plataforma de bandeiras e lutas que os unifique, preservando independência dos patrões e dos governos. Há que considerar que a crise capitalista não se encerrou e recrudescerá e que o Brasil continua dependente dos capitais internacionais. Impedir que haja leilão de lençóis petrolíferos, especialmente no pré-sal; exigir a reforma agrária e a reforma tributária. Luta pela redução da jornada de trabalho. defesa da Previdência Pública e dos direitos trabalhistas. Reinstituir a Convenção 158 da OIT e uma Reforma Política que impeça que as eleições continuem nas mãos de marqueteiros e dos financiadores de campanhas.
Em janeiro de 2011
RONALD SANTOS BARATA
Coordenação do Movimento de Resistencia Leonel Brizola

" Nas altas esferas " Artigo do Antropólogo Roberto Da Matta. Hoje dia 12 de janeiro de 2011 no Jornal O Globo

“ Nas altas esferas “


Todo escritor é médium .Fala sempre com os mortos e está em contato permanente com as altas ( e baixas ) esferas quando orienta o seu pensamento para o lado espesso do mundo . É quando exerce mais claramente sua função mediadora ou , como dizia Thomas Mann , lunar . Esse espaço situado entre a Terra e o Sol , alcançável apenas pelo pensamento e pelo destemor de pôr em contato real e ideal , verdade e beleza . Pensar e escrever são como Esaú e Jacó . Gêmeos , eles fazem em antagonismos e complementaridades que , quase sempre , deixam o coração aos saltos e as mãos trêmulas .
As altas esferas revelam seus detalhes – just one of those things – brasileiros . O ministro da Justiça , que eu não quero confundir com o Nelson Jobim , diz que é “ ridículo “ noticiar as férias do ex-presidente Lula e família , num forte do Exército ; já o superministro do Exterior , Marco Aurélio Garcia , classifica de arrogante e agressivamente , como “ insignificante “ revelar que os filhos de Lula têm passaporte diplomático , o tal passaporte vermelho que dá direito a “ trazer tudo “ – sonho de quem visita os chamados “ países adiantados “ , hoje caricaturas de si próprios . Um outro comentarista diz que este fato mostra a “ vaidade “ do ex-mandatário supremo da nação que , pelo visto , continua mandando prá cacete .
Meu filho desencarnado , ex-comandante da Varig , morto subitamente aos 42 anos , cuja viúva e filhos tiveram a sua pensão seqüestrada pelo governo Lula , desce das altas esferas . ( Não estou escrevendo à meia-noite , mas numa bela manhã de sábado , o sol entrando alegremente pelas janelas . O espírito do meu saudoso filho manifesta-se por meio do meu pensamento e surge cristalino na nevoa minha amargura ) .
“ Papai , o Brasil não consegue ler a si mesmo , nem com a ajuda dos mortos “ . O espírito acentua que os “ detalhes “ dos ritos do poder – revelados com a astúcia e o humor de sempre pelo Luiz Fernando Veríssimo , lido por seu i-pad astral ( no “ Nosso Lar , revela além da arquitetura do Oscar e da Burocracia do Estado Novo , todos usam produtos da Maçã … ) – teriam que incluir a cora , pois o que se viu não foi a posse de uma presidente , mas o coroamento de uma rainha , ungida sucessivamente pelos santos óleos do Judiciário , do Legislativo ( com discurso de boas-vindas do grande Sarney ) e , finalmente , do ex-presidente Lula que continua , como se sabe , a ser majestade , conforme confirmam os seus fiéis seguidores , dispostos a morrer pelo seu chefe .
“ Papai – reitera – não deixe de ler o WikiLeaks sobre a Varig . mas , antes disso , eu quero dizer o quanto você está certo em ser o primeiro a falar da matriz hierárquica brasileira . Pelo menos é o que ouço do Prof. Sergio Buarque de Hollanda , preocupado com a filha no Ministério da Cultura ( têm muita cultura no país “ , ele me diz , piscando um olho ) e de Gilberto Freyre , hoje engajado na leitura de Weber e mortificado por não o ter usado em suas reflexões sobre o Brasil . É essa matriz aristocrática que produz mal-estar e alergia diante da igualdade . Vamos bem quando somos diferenciados , reagimos mal e pulamos a cerca quando voltamos ao mundo dos comuns . Esse mundo que , no Brasil , tem o estigma da inferioridade social . Como você diz ,separar o papel da pessoa é um dado básico das democracias liberais . De fato , neste astral igualitário e tendente á anarquia em que vivo , o que conta , além da ética e do olhar de São Pedro , é um formidável sentido de suficiência e de limite : do que podemos ou não fazer , receber ou pleitear. Quando terminam o papel e a lei , entre a ética! Aqui , Papai , você estaria em casa ! Um beijo e a saudade eterna do filho que te ama muito … “
[ Eu me peguei olhando para o sol ] .
Em estado de choque espiritual , aquela circunstância que acomete quem fala com as altas esferas , procurei a informação sobre a Varig . Com que clareza o político-eleitoreiro aprofundou o câncer da empresa . Com que desfaçatez os protagonistas das altas esferas prolongaram a agonia da Varig , levando-a sucessivamente às unidades de tratamento intensivo , para depois martelar os pregos no seu caixão . e com que avidez suas duas concorrentes entraram – não sem ajuda palaciana e pessoal ( que bota de lado os escrúpulos ) – no seu mercado e em seu nome tomaram o seu espaço . “ Por que um governo liderado por um presidente do Partido dos Trabalhadores deveria subsidiar uma empresa mal administrada que atende à elite ( o pobre não tem dinheiro para voar ) ? “ , diz uma autoridade do governo Lula ao americano tranqüilo cujo despacho vazou no WikiLeaks .
Isso em meio ao mensalão que desmascarou o partido que não roubava nem deixava roubar , segundo o mantra de um José Genoíno prestes a voltar às altas esferas .
Dizem que tudo que acontece é por que tem que acontecer . Não poderia ser de outro modo , mas eu , biblicamente vos digo : não aceitem isso sem reação ! Revoltem-se ! ser humano é ser contraditório : é remar contra a corrente . È ir para o lado oposto dos tempos e dos costumes . É não aceitar o destino . \o fuzilado grita “ viva a vida “ ao receber no peito a primeira bala ; e o moribundo pensa nos estertores do amor quando seu anjo da guarda , envergonhado vem buscá-lo . Eu não aceito a morte do meu filho e outras coisas que me aconteceram . Estou cheio de fel ? Ledo engano : minha resistência me trouxe energia a compreensão . o não aceitar me fez redescobrir o amor e o detalhe que o Veríssimo não percebeu : a coroa de rainha do Brasil que vocês s colocaram na cabeça da Dilma !
Saravá ! E possa eu saber mais e melhor o significado do suficiente 

segunda-feira, 15 de março de 2010

25 anos de NOVA REPÚBLICA.....Artigo de José Serra. Prisioneiros da Democracia




segunda-feira, 15 de março de 2010
25 Anos de Nova República: o artigo de José Serra.
Prisioneiros da democracia

Sejamos todos cativos da democracia. É a única prisão que presta tributo à liberdade. Repudiemos a sugestão de que menos democracia pode implicar mais justiça social

O Brasil comemora hoje os 25 anos da Nova República. Isso quer dizer que celebra um quarto de século de estabilidade política e de plena vigência do Estado de Direito, o mais longo período da fase republicana com essas características. Na primeira década da restauração da normalidade institucional, a democracia de massas firmou-se e afirmou-se no bojo da nova Constituição. E isso se deu apesar da morte do presidente eleito Tancredo Neves, da superinflação, do sufoco externo e do impeachment do primeiro presidente eleito pelo voto direto desde 1960.
A partir da estabilidade de preços conquistada pelo Plano Real, a credibilidade externa foi sendo reconquistada, nosso setor produtivo tornou-se mais competitivo interna e externamente, as fronteiras do comércio se expandiram e, acima de tudo, deflagrou-se um processo cumulativo de acesso das camadas mais pobres a um nível mínimo de bem-estar social. E essa mudança não caiu, como diria alguém, da árvore dos acontecimentos. Foi uma construção.
Durante muito tempo, a imagem do Brasil como o país do futuro foi para nós uma bênção e uma condenação. Se ela nos ajudava a manter a esperança de que um dia transformaríamos nosso extraordinário potencial em felicidade vivida, também nos condenava a certo conformismo, que empurrava, sempre para mais tarde, os esforços e sacrifícios necessários para a superação de limites. Durante um bom tempo, o gigante que um dia acordaria serviu mais à má poesia do que à boa política. E tivemos de dar o primeiro passo, aquele que, pode-se dizer agora, decorridos 25 anos, foi um ato de fato inaugural. E não que a fronteira tenha sido rompida sem oposições de todos os lados.
Certo convencionalismo pretende que a história dos povos se dê numa alternância mecânica de ruptura e acomodação; a primeira engendraria mudanças que acelerariam a história, conduzindo a um patamar superior de civilização; a segunda concentraria as forças da conservação ou mesmo do reacionarismo, sendo fonte de perpetuação de injustiças.
A nossa história de país livre não endossa esse mecanicismo. Sucedendo à monarquia constitucional, a República entrou em colapso em menos de 40 anos. Somente nos anos 90 tivemos o primeiro presidente Fernando Henrique Cardoso que, eleito pelo voto universal, transmitiu o poder a um presidente igualmente escolhido em eleições livres e que concluiu seu mandato. Em pouco mais de um século de República, o Brasil teve dois presidentes constitucionais depostos, um que se suicidou para evitar a deposição, um que renunciou e outro que foi afastado de acordo com as disposições da Constituição no período, o país experimentou duas ditaduras: a do Estado Novo e a militar.
Como se nota, experimentamos mais rupturas do que propriamente acomodação e boa parte delas não pode ser considerada um bem. Enquanto aquele futuro mítico nos aguardava, as irresoluções foram se acumulando. Quando o Brasil, na década de 80, se reencontrou com a democracia, era visto como uma das sociedades mais desiguais do planeta, com uma dívida externa inadministrável, uma economia desordenada e uma moeda que incorporara a inflação como um dado da paisagem.
A Nova República teve a coragem da conciliação sem, no entanto, ceder nem mesmo os anéis ao arbítrio. E isso só foi possível porque o povo brasileiro não se deixou iludir pela miragem de uma mudança por meio da força. Entre a democracia e a justiça social, escolhemos os dois. Nem aceitamos que a necessidade da ordem nos impedisse de ver as óbvias injustiças nem permitimos que, para corrigi-las, fossem solapadas as bases da liberdade. O povo ficou ao lado das lideranças que tiveram a clarividência de escolher a transição negociada. Aqueles eventos traumáticos que marcaram os 10 primeiros anos da Nova República não chegaram nem sequer a arranhar a Constituição. Ao contrário: curamos as dores decorrentes da democracia com mais democracia; seguimos Tocqueville e respondemos aos desafios da liberdade com mais liberdade.
Essa vitória da mudança gradual sobre as ilusões da ruptura não se fez sem lutas. Milhões de brasileiros foram para as ruas, em ordem e sem provocações, exigir o voto popular direto para a Presidência e para todos os cargos eletivos. O movimento das Diretas-Já não foi imediatamente vitorioso, mas mostrou sua legitimidade e levou setores que apoiavam o "antigo regime" a perceber que uma nova ordem estava nascendo: a ordem democrática.
Assistimos à Constituinte, às eleições diretas e à plena restauração da soberania popular. Esse tripé da consolidação democrática, com seus corolários alternância no poder e transição pacífica , são a base institucional que distingue o Brasil do presente daquele da fase da instabilidade. Foi a crença nesses valores que nos permitiu superar a ilusão de soluções radicais e imediatistas. A democracia, tornada um valor inegociável, permitiu que os sucessivos governos pudessem aprender com os erros de seus antecessores e os seus próprios, corrigindo-os, o que concorre para o aperfeiçoamento das políticas públicas.
Não foram erros pequenos nem triviais. Alguns foram monumentais, como o confisco da poupança e a tentação, de um cesarismo doidivanas, de acabar com a inflação "num só golpe", confiscando a poupança popular. A democracia que nos permitia errar de modo fragoroso também nos permitiu um acerto histórico: a implementação, nos governos Itamar Franco e Fernando Henrique, do Plano Real. Ele nasce, sem dúvida, de uma engenharia econômica ímpar, de um rigor técnico até então desconhecido no Brasil nos planos de estabilização, mas acredito que uma das razões de seu sucesso nunca foi suficientemente considerada: ele foi amplamente negociado com a sociedade, com um razoável período de transição entre os dois regimes monetários. Mais uma vez, o gradualismo mostrava a sua sabedoria. A inflação não morreu com um golpe. Ela morreria com inteligência e democracia.
O significativo avanço das condições sociais e a redução do nível de pobreza no Brasil, hoje exaltados em várias línguas, só se deram por conta de políticas que foram se aperfeiçoando ao longo de duas décadas, como a universalização do Funrural, os ganhos reais no salário mínimo e os programas de transferência de renda para famílias em situação de extrema pobreza. O atual governo resolveu reforçar essas políticas quando percebeu que "inovações" como o Fome Zero e o Primeiro Emprego fracassaram. Também é um dado da realidade que as balizas da estabilidade, cuja régua e compasso são o Plano Real, foram mantidas (mais no primeiro do que no segundo mandato).
O crescimento, o desenvolvimento e o bem-estar não são manifestações divinas. Não estão garantidos por alguma ordem superior, a que estamos necessariamente destinados. Existem em função das escolhas que fazemos. Sou muito otimista sobre as possibilidades do Brasil. Se, antes, parecíamos condenados a ter um futuro inalcançável, hoje já se pode dizer que temos até um passado bastante virtuoso. Mas é preciso cercar as margens de erro para que continuemos num ciclo virtuoso. Dados recentes divulgados pelo IBGE demonstram que voltamos a ter um déficit externo preocupante e que a taxa de investimento está bem abaixo do desejável especialmente no caso do setor público para assegurar no futuro a expansão necessária da economia e do consumo. Afinal, os desafios que o Brasil tem pela frente ainda são imensos.
Com a Nova República, o Brasil fez a sua escolha pela democracia e pelo Estado de Direito. É essa a experiência que temos de levar adiante, sem experimentalismos e invencionices institucionais. Porque foi ela que nos ensinou as virtudes da responsabilidade inclusive a fiscal. Fazemos, sim, a nossa história; fazemos as nossas escolhas, mas elas só são virtuosas dentro de um desenho institucional estável.
Sejamos todos cativos da democracia. É a única prisão que presta seu tributo à liberdade. Assim, repudiemos a simples sugestão de que menos democracia pode, em certo sentido, implicar mais justiça social. Trata-se apenas de uma fantasia de espíritos totalitários. Povos levados a fazer essa escolha acabam ficando sem a democracia e sem a justiça.

José Serra
Governador de São Paulo