segunda-feira, 11 de abril de 2011

Post do Leito: A herança maldita e a tragédia pessoal dos ex-funcionários da Varig. Revista Veja. Jornalista Ricardo Setti


11/04/2011
 às 15:47 \ Política & Cia

Post do leitor: A herança maldita e a tragédia pessoal dos ex-funcionários da Varig

Amigos, amanhã, dia 12, terça-feira, às 15 horas, um grande número de ex-funcionários da falecida Varig fará uma manifestação na Cinelândia, no Rio de Janeiro, para reivindicar direitos e marcar o 5º aniversário do que para eles foi uma tragédia: a intervenção do governo no fundo de previdência complementar Aerus.
Isso, na prática, significou o desastre financeiro para a esmagadora maioria funcionários que, em muitos casos por décadas, contribuíram para o fundo e hoje recebem migalhas (os que se aposentadoram) ou não têm perspectiva de receber nada (os que ainda não tinham se aposentado).
Na véspera do dia fatídico, funcionários se manifestaram em Brasília, estiveram com políticos e gente do governo — e nada se resolveu.
Aproveito então para publicar como Post do Leitor texto de José Carlos Bolognese, ex-comissário de bordo da Varig.
Com a colaboração dos ex-colegas José Paulo de Rezende e Wallace Rocha, ele relata as terríveis agruras por que passam os funcionários que contribuíram durante toda uma vida visando ter uma renda decente na aposentadoria, e de como desmandos vários, inclusive do governo, levaram à virtual quebra da Varig e do Aerus, lançando milhares de ex-variguianos na insegurança, na falta de recursos e no desespero.
“O mal é tanto mais perverso quanto indefesa é a vítima”
Sofre sempre mais quem não pode se defender, como velhos, crianças ou deficientes.
Para trabalhadores, o fantasma da velhice é o colapso da aposentadoria. Sendo a aposentadoria pública o que é – exceto quando o emprego também é público e para poucos – quem depende do INSS precisa complementar o que falta pagando do próprio bolso a um fundo de aposentadoria complementar, anos antes da parada final.
Quando se aposenta pelo INSS, o cidadão descobre que as contribuições ao instituto – suas e da empresa – estão numa relação de mais para menos. Pior ainda, sabe, mesmo sem poder provar, que parte do que recolhe, com seu patrão, vai para outras contas do governo. E este, com o respaldo de “especialistas”, que nunca terão de sobreviver de uma merreca do INSS, vende à sociedade o falso argumento do “déficit previdenciário”.
Os trabalhadores da Varig, Vasp e Transbrasil pensavam ter feito por onde evitar essa arapuca. Só esqueceram de combinar com os russos.
A aviação é o mais perigoso meio de transporte, ao contrário do que se acredita. O que garante a segurança do transporte aéreo é o respeito a suas rígidas normas operacionais, mínima tolerância na manutenção de aeronaves e outros equipamentos e, acima de tudo, profissionais de todas as áreas altamente treinados e reavaliados periodicamente. Na aviação não existe o “Não sei… Eu não vi…. Não fui eu”. Cada um responde por sua função.
Há exceções? Claro, e quem procura pelas maiores também encontra as grandes tragédias. O trabalhador de aviação, portanto, merece salário justo pela qualidade e segurança do produto que lhe é exigido, e que oferece ao público. Assim, tem direito a uma aposentadoria decente, que não fique à mercê da previdência pública, paga por muitos para proveito de poucos.
Criação do Aerus e perda de aportes no governo Collor
Essa é a razão da criação, em 1982, do Instituto Aerus de Seguridade Social. Quando foi constituído, o Aerus contava com três fontes de receita:
1) contribuições da Varig e outras empresas do setor (patrocinadoras);
2) contribuções dos empregados participantes;
3) 3% do valor das passagens domésticas comercializadas.  Essa contribuição deveria ocorrer durante 30 anos, ou seja, até o ano de 2012.
É importante assinalar que nunca se tratou simplesmente de os usuários bancarem a aposentadoria de aeronautas e aeroviários, mas sim de um aporte proveniente das tarifas cujos valores haviam sido estabelecidos anteriormente, e compensando obrigação semelhante por parte do Estado via a antiga Caixa de Aposentadoria e Pensões dos Ferroviários e Empregados em Serviços Públicos (CAPFESP).
Em 1991, porém, no “governo” Collor – apenas nove anos depois de começar o recolhimento desses 3% --, em ato unilateral e sem base técnica, por uma portaria do Departamento de Aviação Civil (DAC), antecessor da atual Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), as empresas foram desobrigadas de repassar esses 3% ao Aerus. Aqui, sim, as empresas receberam um presente do governo, via DAC, porque em período de congelamento de preços elas, deixando de repassar os 3%, conseguiram um considerável aumento de arrecadação à custa dos trabalhadores.
Congelamento de tarifas coloca empresas a nocaute
Começou aí uma série de desequilíbrios que ferem os planos de aposentadoria até hoje. É bom lembrar que DAC ou ANAC não têm jurisdição sobre previdência. Como era um dinheiro dos aposentados, há que questionar para onde foi ou ainda vai esse dinheiro dos 3%, que continua a ser cobrado do usuário (desde então embutido nos custos das passagens).
O outro grande vilão dos aposentados e ex-trabalhadores, que pôs a nocaute Varig, Vasp e Transbrasil – há muito reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal – foi a estúpida política de congelamento tarifário do “governo” Sarney, para uma atividade operada segundo normas do mercado internacional e que, por ser uma concessão pública, portanto inerente ao próprio Estado, não pode submeter o concessionário a conduzi-la sem a correta compensação de seus custos, como já bem definiu o mesmo Supremo ao julgar o caso Transbrasil.
O que se seguiu foi a lenta agonia da Varig, que no processo ainda repassava ao Aerus o que recolhia dos funcionários participantes, cessando porém, ilegalmente, de recolher a sua parte como patrocinadora.
Protestos de ex-funcionários da Varig em Brasília, em abril de 2006
Se de um lado o governo asfixiava a empresa via a estatal BR Distribuidora (combustíveis), as altíssimas taxas aeroportuárias e a não admissão de sua dívida para com a empresa, estimada em pelo menos 4 bilhões de reais e gerada pela defasagem tarifária durante os períodos de congelamentos de diferentes planos econômicos, entre 1985 e 1992, e reconhecida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), de outro autorizava a Varig, patrocinadora do Aerus, a fazer 21 contratos – 21 contratos!! — de repactuação de suas obrigações com os planos de aposentadoria de seus funcionários no Aerus.
Já era claro, àquela altura, que as partes – governo, Aerus e Varig – sabiam que tais contratos nunca seriam cumpridos. Como era ainda mais claro para quem não apitou nessas “negociações” – os participantes – que herdariam como até hoje, os prejuízos.
600 pilotos expatriatos. E teve gente que se suicidou
Então, em 12 de abril de 2006, fomos surpreendidos com a intervenção para liquidação dos planos I e II dos trabalhadores da Varig no Aerus. Para se ter uma ideia do impacto do desastre sobre os variguianos, entre essa data e agosto de 2010 estima-se que tenha aumentado em 30% a taxa de mortes entre os ex-funcionários em relação aos índices até então observados. Só entre os aposentados houve 425 falecimentos, alguns até por suicídio.
Quando se aplicou à Varig a nova Lei de Recuperação Judicial de Empresas (lei nº 11.101, de 9/2/2005), embora se trombeteasse que salvaria a companhia e os empregos, o que se fez foi expatriar cerca de 600 pilotos – mão de obra altamente qualificada, formada às custas do Brasil e oferecida de graça a empresas estrangeiras.
As empresas aéreas concorrentes, que lucraram com o fim da Varig, também não absorveram tantos comissários e pessoal de terra como se alardeava.  Os “sortudos” (nem 10%) que conseguiram voltar ao trabalho tiveram de aceitar salários bem mais baixos, tendo em muitos casos, de mudar para outras cidades.
Protesto: "Nós temos a solução! Lula, só depende de você"
Para quem pensa que o calote é só nos trabalhadores da Varig, que vá ficando esperto: Todo o faturamento gerado por uma Varig funcionando foi transferido, na maior parte, para empresas estrangeiras, segundo informou o então ministro do Turismo, Luiz Barretto, no Fórum PANROTAS ocorrido na Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio) em 2010: “Só agora, após três anos, o País recuperou a falta da Varig no mercado internacional”, disse o ministro.” Ficamos sem 10 mil assentos em nosso mercado, que só agora conseguimos recuperar, com a participação de empresas aéreas internacionais”.
É curioso. Empresas aéreas internacionais recuperando nosso transporte aéreo…e levando nosso dinheiro. Enquanto se diz isso com a maior….candura, falar em devolver o dinheiro dos aposentados é…. assalto aos cofres públicos?
Para os aposentados do Aerus, sobrou a promessa de solução via um acordo (loteria pra nós) em que a União reconheceria finalmente sua responsabilidade na questão da defasagem tarifária com prioridade para o Aerus.
“Perda de patrimônio e da vontade de viver”
A triste realidade, ainda hoje, é esse brutal aumento de mortes e outras perdas irreparáveis. E os que sobrevivem, enquanto as reservas do Aerus não acabam de vez, tiveram redução de 92% — sim, de noventa e dois por cento! — em seus benefícios, havendo casos de pessoas recebendo pouco mais de 100 reais por mês após pagarem pesadas contribuições durante anos.
Perda de patrimônio, da vontade de viver, abandono de planos de saúde, dependência de parentes e amigos constituem a herança maldita legada em maior parte, por esse “governo de trabalhadores”.
Segundo o que vazou pelo Wikileaks, em dezembro de 2004 fonte do governo Lula declarou a justificativa de não socorrer a Varig: “Por que um governo liderado por um presidente do Partido dos Trabalhadores deveria subsidiar uma empresa mal administrada que atende a elite (o pobre não tem dinheiro para voar)?”
Se esse “governo” achava que a Varig era para elite, devia pensar o mesmo de seus funcionários, pois também os abandonou à própria sorte.
Você pode se inteirar mais dos problemas aqui citados nos blogsAcordo Já!O Cão que Fuma e Aviões Abatidos.

Um comentário:

  1. Parabéns pela otima materia,que realmente diz a verdadeira história do que aconteceu com a nossa querida varig.E o descaso do Governo Federal na época em que os trabalhadores da varig foram a Brasilia pedir uma solução para o Presidente Lula,ele bateu a porta para os variguianos,levando o nosso fundo de pensão Aerus na situação que se encontra hoje,mais se Deus existe,e ele existe nós da familia variguiana vamos seir vitoriosos dessa batalha.

    Luiz Almeida
    Aposentado do Aerus varig

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