quarta-feira, 10 de novembro de 2010

" O Duopólio e o partido único " ROBERTO DA MATTA. Jornal O Globo dia 10 de novembro de 2010

O GLOBO - 10/10







“ O DUOPÓLIO E O PARTIDO ÚNICO “


Estou de novo num aeroporto . Outro dia fui impedido de resgatar milhas , hoje estou numa espera sem justificativa . Impotente , faço como todo brocha : reflito ansioso sobre a situação . Não posso deixar de pensar na Varig e no duopólio > Pois até no monoteísmo , quando só há um Deus , ele é uma Santíssima Trindade e tem uma Virgem Maria Mãe . Tudo a ver com o momento político , já que todo monismo acaba em pluralismo . Finda a eleição que juntou , recomeça o sofrimento do cidadão frente aos velhos problemas que fragmentam . Mas há coerência . Pois , se a promessa é governar para os esfaimados , quem anda de avião é um faminto pagante , o que , convenhamos , não deixa de ser uma versão brilhante do socialismo à brasileira . Seguindo o axioma de Martha Suplicy relaxo e gozo quando em pleno vôo , e, tangido pela fome dos pobres de Deus , devoro barrinhas de cereal e nanosanduiches de fudele de peru com creme de barbear .


Num país onde somente agora , em pleno século 21 , se tenta excluir bandidos dos cargos eleitorais e que começa a ficar incomodado com o fato de os poderosos não terem que seguir a lei e a desconfiar que reclamar é um direito , e não falta de educação , admito que há progresso . Comporto-me , pois , como o anticidadão que sempre fui . Escrevo e, no silêncio que mata , entendo qual é o meu lugar!


No Brasil do antiliberalismo inventou “ partidos democráticos “ cujo objetivo era o de destruir as outras agremiações que , por sobrevivência ou malandragem , deveriam integrar o grande rio ideológico capaz não só de promover o progresso , mas de resolver ( eis a nossa concepção hierárquica de democracia liberal !) – e de resolver de uma vez por todas ! – os grandes problemas com magníficas reformas de base . Na reinvenção do liberalismo , toldamos a liberdade dos outros .


Um desses partidos está no poder . E , se o poder destrói os inimigos , ele cria a arrogância que desmascara os amigos . Com isso , aquele partido ideológico exemplar , que não roubava nem deixava roubar , tornou-se um vasto pântano e pariu um líder nacional personagem e tragicômico . Um grande guia que , com um excepcional populismo popular , subverteu a obsessão monista de sua agremiação , cujo alvo era defender os interesses dos pobres e famintos . No poder, a ilha vira continente . Tal como o Plano Real acabou com a inflação das múltiplas moedas , na esfera política dominante transformou o seu líder no princípio exclusivo do poder .


Não se diz tudo numa crônica . Mas pode-se apontar as transformações não previstas pelo monoteísmo petista . De cara , o enorme papel do cara . Depois o fracasso da ejaculação precoce do ex.capitão do time , o notório Zé Dirceu , ato que liquidou a liderança ideológica e simultaneamente promoveu , com o sucesso do Plano Real e das medidas macroeconômicas que eram a herança maldita do governo tucano , um dinamismo inusitado no consumo com suas contradições e polifonias . Surge então uma dualidade curiosa: os aliados de modernização , como o PSDB , passam a ser inimigos mortais ; e os velhos reacionários – os coronéis dos grotões – tornam-se amigos de coração .


Essas reviravoltas permitiram ao guia escolher e eleger um sucessor feminino virgem do PT e de disputa , onde , como dizia um dos aliados de Lula , expulso da presidência por corrupção , seria preciso ter “ aquilo roxo “ .


No campo do transporte aéreo sucedeu algo semelhante . Uma companhia que dominava e era símbolo nacional foi liquidada . O que era um , virou dois e agora há o orgulho de se viver num momento mágico no qual tudo cabe , inclusive a destruição de uma empresa que recebeu como um estertor o fundo de pensão dos seus trabalhadores logo usurpado pelo governo .


Com o fim do monopólio aéreo , ninguém mais sofre , exceto os passageiros sujeitos a duas empresas que podem escusar o respeito que o ardiloso capitalismo liberal exige de quem paga . Se sou contra isso ? Se escrevo por mágoa porque uma das maiores vilezas do governo Lula foi , além do mensalão , liquidar a Varig que com ela levou meu filho para o cemitério , a resposta direta é um claro , doloroso e sincero SIM !


No plano geral , vale chamar a atenção de como um projeto de poder à stalinista , acabou por promover mais capitalismo e liberalismo . Muito mais do que nos oito anos de FHC . pela mesma lógica , o partido da justiça social liquidou uma enorme empresa sem pensar nos seus trabalhadores . mas o sucesso da eleição de Dilma abala inesperadamente a tese do “ salvador carismático da pátria “ , pois a imagem da mãe está muito mais próxima do liberalismo que se abre a si mesmo , recriando-se diariamente , do que dos velhos autoritarismos que não suportam diferenças .


No plano pessoal , o da tal crônica clássica , porém leve e um tanto carnavalesca , que , dizem os entendidos , é um achado brasileiro , eu confesso que o duopólio aéreo simboliza a morte do meu filho mais velho .


Para ficar no que pode ser dito , ele traz de volta o sofrimento e o desejo humano de restituição , que só vai terminar quando eu morrer .


Não posso ter meu filho de volta , mas posso sublimar a experiência dolorosa de sua perda chamando a atenção para a enorme traição feita com a Varig . Falo com viés , tomo partido . E por que não se isso foi a única coisa que aprendi com o PT e com o Lula ?


Mas com uma diferença fundamental : a morte do meu filho não tem dois pesos e duas medidas , como tudo neste governo , que , felizmente , está indo embora .


Roberto Da Matta

Um comentário:

  1. Parabéns ao grande Escritor e Antropólogo Roberto Da Matta por este brilhante texto.
    O mesmo lavou a minha alma em relação ao grande sofrimento que todos os trabalhadores da VARIG passam há mais de 4 anos.
    Parabéns Roberto da Matta.

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